Manifesto - versão 2.0

Metodologia Granular

Um framework determinístico e transparente para gerenciamento granular de tarefas técnicas, revisto para times que desenvolvem com IA.

Desenvolvido pelo Estúdio Digital Bocca
  1. 01Backlog
  2. 02Pronto p/ Refinar
  3. 03Em Refinamento
  4. 04Ready to Develop
  5. 05Em Desenvolvimento
  6. 06Code Review
  7. 07Em Testes
  8. 08Defeitos
  9. 09Aguardando Deploy
  10. 10Concluído

Visão geral

A Metodologia Granular é um framework para times técnicos que prioriza determinismo, transparência e previsibilidade. Ela foi pensada para o desenvolvimento de software e controla o fluxo de trabalho em detalhe.

Para quem é

Para times de 3 pessoas ou mais. Times menores não têm os problemas que o framework resolve: comunicação entre várias pessoas, visibilidade do trabalho em andamento e métricas de fluxo. As regras deste manifesto, como “quem faz não valida” e os registros obrigatórios, só se pagam nessa escala, e por isso não há exceção para times menores.

O que mudou desde a v1.0

A IA passou a escrever boa parte do código, e o gargalo mudou de lugar:

  • Em Desenvolvimento, que era a coluna mais longa, virou a mais rápida.
  • Refinamento, review e testes ficaram mais longos do que antes.
  • A demanda chega sem contexto. Ela costuma vir de outra stream (design, UX, suporte), onde as pessoas já usaram IA e discutiram bastante, mas só o resultado chega ao time de dev.
  • Dá para desenvolver várias tarefas em paralelo, mas sem o contexto na cabeça fica mais difícil refinar e validar.
Começar um card ficou barato, mas terminar continua caro. Por isso, a v2.0 move o controle de WIP para o fim do fluxo e obriga cada etapa a registrar o próprio contexto.

Princípios fundamentais

  1. 01Fluxo determinístico com etapas bem definidas.
  2. 02Pare de começar, comece a terminar: o WIP apertado fica na validação, não no desenvolvimento.
  3. 03Quem faz não valida.
  4. 04O card conta a própria história: cada etapa deixa um registro escrito.
  5. 05Todo erro em produção tem origem, e o custo dele volta para ela.
  6. 06Rastreamento temporal preciso de cada fase.
  7. 07Transparência total do processo.

Regras fundamentais

01Fluxo fixo e rastreável

Todo card segue o mesmo caminho, pelas mesmas 10 colunas, de Backlog a Done. Existem duas raias: a raia normal e a raia de Hotfix, que usa as mesmas colunas (ver regra 5).

02WIP (Work in Progress)

OndeLimitePara quem vale
Em DesenvolvimentoConfigurável por time (ex.: 3, 5)Autor do card
Code Review / Em Testes (em andamento)1Quem está revisando ou testando
Raia de Hotfix1Dev do hotfix
  • O limite de Em Desenvolvimento depende mais da capacidade das ferramentas de IA (créditos, por exemplo) do que da atenção do dev. Por isso ele é configurável.
  • Na validação, o WIP = 1 é de quem valida, não do autor. É ali que o contexto mais pesa.

03Quem faz não valida

  • O autor não revisa nem testa o próprio card. Isso evita o viés de quem desenvolveu.
  • O card tem três campos diferentes: autor, revisor e testador. Quem revisa e quem testa podem ser pessoas diferentes, mas nenhum dos dois pode ser o autor.

04Empurrão para validar

O sistema bloqueia a entrada de um card novo em Em Desenvolvimento quando as duas condições abaixo valem ao mesmo tempo:

  • existe card de outra pessoa aguardando em Code Review ou Em Testes;
  • e o dev não está validando nenhum card.

Há 3 cards aguardando review. Pegue um antes de começar outro.

O hotfix sempre passa. A regra existe para que quem está com o desenvolvimento travado ajude a terminar o trabalho dos outros, em vez de deixar uma pilha de cards para o time validar.

05Hotfix e bug grave

  • Origem é rastreio, hotfix é prioridade. Qualquer card de correção pode apontar a entrega de origem, que causou o problema, e isso alimenta o custo dela. O hotfix é um privilégio, e por isso precisa ser raro.
  • Definição: hotfix é a correção de um problema em produção causado por uma entrega “quente”, que chegou ao Done há no máximo N dias. N é configurável por time, e o padrão é 2 dias. Passou disso, não é hotfix: é bug, e segue a raia normal.
  • Impacto declarado: o card de hotfix tem um campo obrigatório: “o que acontece se isso esperar o fluxo normal?”.
  • Quem declara: qualquer pessoa do time, de preferência quem encontrou o problema ou quem desenvolveu a entrega de origem.
  • WIP: 1 hotfix por dev.
  • Prioridade: na validação, o hotfix fura a fila e pode interromper um review ou teste em andamento.
  • Interrupções: enquanto o hotfix está ativo, os cards interrompidos continuam contando tempo e registram a interrupção. Esse tempo também é somado ao custo da entrega de origem.
  • Conclusão: o hotfix só termina quando todo o retrabalho termina: testes, backfill, limpeza e correção de dados.
  • História: o hotfix herda a história da entrega de origem (ver regra 6), que serve de base para o post-mortem.
  • Bug grave: um bug fora da janela segue a raia normal. Quando é grave, pode ganhar prioridade e passar na frente, mas cada card pausado para ele registra a interrupção, com o bug como justificativa. O registro explica o aumento do lead time do card pausado, e a pausa não conta contra ele.

06O card conta a própria história

Cada etapa anexa ao card um registro em Markdown. Todos são obrigatórios.

RegistroQuem escreveConteúdo
PassagemStream de origem (relator)Problema, decisões, alternativas descartadas, restrições, perguntas em aberto, critérios de sucesso, fontes
RefinamentoTime de devRespostas às perguntas em aberto, decisões técnicas, critérios de aceite
DesenvolvimentoAutorO que foi feito, onde a implementação desviou do refinamento e por quê
ReviewRevisorO que foi revisado, problemas encontrados e como foram resolvidos, riscos
ValidaçãoTestadorO que foi testado, o que ficou de fora, riscos
  • O registro de Passagem segue o estilo de uma ADR (Architecture Decision Record), com um arquivo por demanda. Ele é a condição para a demanda entrar no fluxo. Modelo no Anexo A.
  • Quem já discutiu a demanda com uma IA pode pedir para ela gerar o registro a partir da conversa, então o custo de escrever é baixo.
  • Os registros servem de contexto para a IA que desenvolve e de referência para quem valida. Quem revisa compara o resultado com as decisões, sem precisar reconstruir de memória o que foi pedido.

07Responsabilidades claras

  • O relator escreve o registro de Passagem e participa da primeira sessão de refinamento.
  • O time de dev move o card do Backlog até Ready, passando pelo refinamento.
  • O autor move o card de Ready até Code Review e escreve o registro de Desenvolvimento. Também corrige os defeitos e devolve o card para a validação.
  • O revisor puxa o card da fila de Code Review, escreve o registro de Review e aprova (vai para Em Testes) ou reprova (vai para Defeitos).
  • O testador puxa o card da fila de Em Testes, escreve o registro de Validação e aprova (vai para Aguardando Deploy) ou reprova (vai para Defeitos).
  • Quem faz o deploy move o card de Aguardando Deploy para Done.

Fluxo de desenvolvimento

  1. 01

    Backlog

    • Tarefas aguardando priorização. Nenhuma ação permitida aqui além de coleta de contexto.
    • Para sair daqui, o card precisa ter o registro de Passagem.
  2. 02

    Pronto para Refinar

    • Tarefas com o registro de Passagem, aguardando sessão de refinamento.
  3. 03

    Em Refinamento

    • Tarefas em discussão e detalhamento. O tempo de permanência nesta fase é medido.
    • Para sair daqui, o card precisa ter o registro de Refinamento.
  4. 04

    Ready to Develop / To do

    • Tarefa refinada, pronta para desenvolvimento sem dúvidas.
  5. 05

    Em Desenvolvimento

    • Limite de WIP configurável por time.
    • Autor obrigatório antes de mover para esta coluna.
    • Co-autores podem ser indicados (pair programming), e o card conta uma vez só.
    • A entrada está sujeita ao empurrão para validar (regra 4).
    • Para sair daqui, o card precisa ter o registro de Desenvolvimento.
  6. 06

    Code Review

    • Análise técnica obrigatória, feita por alguém que não é o autor.
    • Aguardando: fila, sem revisor.
    • Em andamento: com revisor. WIP = 1 por revisor.
    • Para sair daqui, o card precisa ter o registro de Review.
  7. 07

    Em Testes

    • Validação funcional em ambiente de testes, feita por alguém que não é o autor.
    • Aguardando: fila, sem testador.
    • Em andamento: com testador. WIP = 1 por testador.
    • Para sair daqui aprovado, o card precisa ter o registro de Validação.
  8. 08

    Defeitos

    • Caso a tarefa falhe nos testes ou no QA. A movimentação deve indicar a causa do defeito: falha no refinamento, falha na execução, falha na definição de "Pronto" ou falha nos testes.
    • O autor corrige e devolve o card para Code Review ou Em Testes, conforme o caso. O card volta para aguardando, reservado para o mesmo revisor ou testador que reprovou, que o pega quando estiver livre.
  9. 09

    Aguardando Deploy

    • Tarefa aprovada, aguardando entrada em produção. Quem faz o deploy move o card para Done.
  10. 10

    Done / Concluído

    • Tarefa finalizada com sucesso e em produção. No caso de hotfix, só depois de todo o retrabalho.

Métricas coletadas

Da v1.0

  • Lead Time por fase (Refinamento, Desenvolvimento, Teste etc.)
  • Throughput diário e semanal
  • Tempo de parada e bloqueio
  • Taxa de retrabalho (via coluna de Defeitos)
  • Aderência ao WIP
  • Histórico de co-autoria
  • Eficiência por estimativa (T-shirt size vs. tempo real)
  • Distribuição de tarefas por categoria e tipo

Novas na v2.0

  • Hotfix com métricas próprias: volume, tempo até resolver e entrega de origem. O hotfix não entra nas médias da raia normal.
  • Custo da entrega de origem: o tempo do hotfix, o tempo dos cards e validações interrompidos e o retrabalho são somados à entrega que causou o problema. A ideia é medir o impacto completo de uma entrega que foi dada como pronta antes de estar pronta.
  • Hotfix por entrega: se subir, ou o time está entregando “pronto antes de estar pronto”, ou está usando o hotfix como atalho.
  • Interrupções justificadas: o tempo que um card ficou pausado por um hotfix ou por um bug grave aparece separado no lead time dele, com a justificativa.

Anti-patterns combatidos

  • Microgerenciamento sem contexto
  • Devs pulando etapas (por exemplo, do Backlog direto para desenvolvimento)
  • Ambiguidade sobre "pronto para desenvolver"
  • Falta de accountability por parte do relator
  • Tarefas com definição solta ou dependência não analisada
  • Demanda que chega só com o resultado, sem as decisões e o contexto que a geraram
  • Começar muito e terminar pouco: encher Em Desenvolvimento e deixar a validação para os outros
  • Autor validando o próprio trabalho
  • Hotfix como atalho: tratar como hotfix um bug antigo, só para furar a fila
  • "Pronto" antes de estar pronto: entregar sem validação suficiente e gerar hotfix e retrabalho

Observações

  • O framework opera com análise determinística: as regras de fluxo, WIP e bloqueio são aplicadas pelo sistema, sem depender de IA generativa.
  • A IA é parte do trabalho do time, tanto para escrever código quanto para escrever os registros. O framework não depende dela, mas foi desenhado considerando que ela está presente.
  • Nenhuma decisão crítica é da IA: aprovar um review ou um teste é sempre decisão de uma pessoa, que responde por ela. As ferramentas que essa pessoa usa para chegar lá, IA incluída, são escolha dela e não fazem parte do método.

Anexo A: modelo do registro de Passagem

# [Nome da demanda]
Origem: design | ux | suporte | ...   Relator: ...   Data: ...

## Problema
O que dói, para quem, e como sabemos (dados, tickets, entrevistas).

## Decisões
- O que foi decidido, e por quê.

## O que foi descartado
- Alternativa X: por que não.

## Restrições
O que não pode mudar (prazo, legal, design system, dados).

## Perguntas em aberto
O que a stream de origem sabe que NÃO sabe.

## Como saber que deu certo
Critérios de aceite, ou o comportamento esperado.

## Fontes
Links para Figma, tickets, conversas com IA etc.

Esta versão foi escrita a partir da prática do time com desenvolvimento assistido por IA e continuará evoluindo com a aplicação em times reais.

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